quinta-feira, 19 de abril de 2012

Só os que renunciam fazem grandes obras

At.20.24
Uma pergunta inicial: O que leva alguém a dar sua vida por uma causa? Se existe algo precioso para uma pessoa é a sua própria vida. Isso é natural. O nosso instinto de sobrevivência é muito forte. A necessidade de preservação é instintiva, faz parte de nossa estrutura como ser vivo-animal, de ser vivo-intelectual-espiritual. É preciso que haja fatos gravíssimos para desvalorizar a vida e passar-se a negligenciá-la, ou pior, a tirá-la.
Quando alguém pratica o suicídio, quase sempre é porque estava passando por uma profunda crise existencial, vítima de uma grande decepção durante a sua caminhada, perdeu o referencial de vida, perdeu-se no emaranhado caótico de conceitos, referenciais e percepções distorcidas de vida.
Numa abordagem positiva: pode-se cometer, se for necessário,  até o suicídio por uma causa maior que a existência. Sendo  motivado por uma consciência de que a própria morte vai ajudar um determinado fim. São pessoas  que descobrem  lutas, ideais, onde, à medida que vão se envolvendo, adentrando, conhecendo a causa, se comprometem de uma forma tal que a sua vida, passa a ser secundária, quanto mais seus bens materiais ou interesses de poder ou de fama. 
Sabemos de muitos casos em nosso meio, de milhares de cristãos que morreram pelo fato de não negarem a sua fé, seu ideal, sua razão de existir. O que leva uma pessoa a morrer por uma causa? Há poucos anos, estando com um colega  de ministério, fiz-lhe  uma pergunta, assim, num misto de brincadeira e  seriedade e  à queima roupa: “Marcos o que você faria se chegasse um anticristão aqui e, com um revolver em sua cabeça lhe desafiasse: ou você nega a Jesus ou eu estouro seus miolos?” O irmão Marcos fechou o semblante, baixou a cabeça, pensou por um instante,  levantou a cabeça, olhou em meus olhos firmemente e disse: se Deus me der graça, se o Espírito Santo me der força naquele momento, eu direi que pode atirar, se quiser, mas negar a meu Senhor eu não nego.

Anti Racismo: Uma Causa Nobre

Fiquei refletindo por vários dias acerca da resposta que o Marcos me deu. O que leva uma pessoa a morrer por uma causa? O que leva alguém a abrir mão de todo um projeto de vida, uma carreira acadêmica, um casamento, a abrir mão de todos os sonhos, a agir como o casal de missionários que entregou os filhos para que estranhos os educassem? Foi o caso de um casal, missionário em uma tribo na Amazônia brasileira, ao descobrir que os nativos  receberiam a eles sem problema, mas não admitiam a permanência de crianças brancas na aldeia. Esse casal, apesar do intenso conflito, voltou para a sua igreja, relatou o fato e desafiou: “Quem pode criar e educar os nossos filhos, eles não podem estar conosco naquela aldeia e Deus nos enviou para evangelizá-la?
Assisti ao filme “O Pastor” feito pela  televisão americana.  Contava a história de um reverendo americano  dirigente de uma igreja em Montgomery, cidade do Estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos da América. Lá, nessa época, vigoravam leis segregacionistas absurdas e estúpidas, tais como: pessoas de cor negra só podiam se sentar no ônibus coletivo na parte de trás; se o ônibus estivesse lotado, era obrigado para o negro, não importando a idade, ceder o seu acento a um branco. Os motoristas só podiam ser brancos. No cinema, eles eram proibidos de assistirem aos filmes nas cadeiras da metade para frente, essas eram estofadas e limpas, só nas ultimas fileiras com cadeiras de madeiras e, tanto os assentos como o piso, sujos, apesar de pagarem o mesmo  ingresso que as pessoas de pele branca, tanto no ônibus quanto no cinema.
 Esse pastor denunciou em seus sermões essas injustiças, inclusive com uma acusação forte, através de vários sermões. Um deles tinha como título: “É SEGURO MATAR, E ESTRUPAR NEGROS NO ESTADO DO ALABAMA” onde denunciou o estupro de uma adolescente e a morte por espancamento de um jovem, ambos negros. Crimes cometidos impunemente pela polícia branca local. A partir de então, passou a ser perseguido e ameaçado de morte pela própria policia, também pela Kus-klus-klan e ameaçado de prisão pelo juiz da cidade. Nesse contexto, com forte pressão, chega um de seus colegas de ministério, um jovem pastor, intrigado com tamanha ousadia e coragem, pergunta-lhe: “O senhor não tem medo? A policia, a Kus-klus-klan e a justiça estão lhe perseguindo, alguns querendo lhe matar. O senhor não tem medo de morrer?” Foi aí que aquele pastor, acocorado, naquele momento, cuidando de sua horta, no fundo do quintal em sua residência, olhou para cima, procurando a face do jovem e  respondeu: SE VOCE NÃO TEM UMA CAUSA PARA MORRER POR ELA, VOCÊ NÃO TEM UMA VERDADEIRA RAZÃO PARA VIVER!˝.  Ele foi pastor naquela igreja Batista, na avenida Dexter, imediatamente antes do Reverendo Martin Luther King Jr. tê-la assumido, foi o precursor, o catalisador de um processo de resistência pacífica naquela igreja Batista em Montgomery, coordenado e dirigido pelo reverendo King, o mesmo que liderou, logo que assumiu, um boicote contra a segregação nos ônibus. O movimento durou 381 dias e terminou com a decisão da Suprema Corte Americana de proibir a discriminação. King passou então a organizar campanhas pelos direitos civis dos negros, baseados na filosofia de não-violência do líder indiano Gandhi. Em 1960, consegue liberar o acesso de negros a bibliotecas, parques públicos e lanchonetes.
Martin Luther King liderou a marcante Marcha sobre Washington, que reuniu 250 mil pessoas em 1963. Ao fim dela, proferiu um famoso discurso que começava com a frase "I have a dream" (Eu tenho um sonho) e descreve uma sociedade em que brancos e negros vivem em harmonia. Da marcha, resultou a Lei dos Direitos Civis (1964), que garante igualdade de direitos entre brancos e negros. Recebe o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Um Ideal Para Segui-lo


 Quando ouvi, no filme aquela  frase: “se você não tem uma causa para morrer por ela, não tem uma verdadeira razão para viver”,  senti a minha estrutura ser abalada de uma forma tal que, chorei fortemente e passei a me questionar: qual nível de entrega, de renúncia, que eu já tinha feito, proporcional à preciosidade, à transformação, à libertação, à paz, ao gozo, à esperança que o evangelho havia trazido para minha vida?
Alguns anelam o seu próprio bem estar. Investem as suas energias em função de si mesmos; só se relacionam com outros se isso lhes trouxer vantagens imediatas e egoístas, muitos desses vivem para comer, vestir, usufruírem e, ao mesmo tempo satisfazerem os prazeres de sua estrutura animal. Não investigam além do olfato, tato e visão, não especulam além da aparência. Esses são tão ensimesmados que não conseguem enxergar outra coisa que não seja seu umbigo. Como diria a música do grupo Ultraje a Rigor,sucesso nos anos 80: ˝Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim!˝
 Outros pensam, nessa perspectiva também, mas não só em si, querem ajudar seus familiares, pelo menos a parte da família mais íntima; os laços familiares são valorizados e, às vezes se sente o máximo por isso; outros já idealizam melhorar o seu bairro, sua cidade, sonham com seu país transformado, imaginam e desejam uma sociedade mais justa, não se conformam com as injustiças sociais, com as guerras por motivações ilegítimas, ou a exploração do homem pelo homem.
 São capazes de renunciarem a prazeres, dedicarem a maior parte de seu tempo ao ideal, se sacrificam pela causa, vêem nela um sentido para a vida. Se for necessário, empunharão armas. Ainda outros sonham com todo o planeta transformado, percebem a humanidade como um povo só, sem fronteiras, a espécime human unida, as barreiras linguísticas não são empecilhos para a unidade, o sentido da vida para esses é um mundo mais justo, um planeta sem barreiras, com fraternidade, liberdade, igualdade e justiça. Esses são perfeitos para a guerra, para lutarem por uma causa justa, são preciosos em qualquer Segmento, seja revolucionário ou não.
Qual líder não gostaria de ter um discípulo pronto para morrer por uma causa? Para esses, o mais precioso, o mais valoroso é a causa, não os interesses individuais ou mesmo nacionais. Quantos comunistas não sucumbiram em campos de batalhas, em guerrilhas urbanas, ou rurais, aqui mesmo no Brasil? Milhares de advogados, comerciantes, médicos, profissionais liberais em geral perderam  suas vidas na revolução francesa. A burguesia lutando por seus direitos junto aos trabalhadores do campo e da cidade, de uma forma geral, contra a tirania real que oprimia a França de uma forma terrível. Semelhantemente, muitos morreram na guerra de independência nos Estados Unidos. O ser cerceado de direitos e da liberdade também pode despertar sentimentos de luta e resistência em pessoas “comuns˝ mais forte do que a própria vida.
 Voltando ao  irmão Marcos e sua resposta: ˝se o Espírito Santo me der graça...˝ Quantos não morreram e morrem pela causa do Islamismo? Não é difícil testemunhar a atitude de milhares de pessoas engajadas nessa religião. São milhares de pessoas de várias idades, prontas a abrirem mão de seus confortos, de seus bens. É fácil ver jovens árabes, com seus corpos repletos de bombas, prontos para morrerem pela causa do Islã. Com certeza nem os comunistas, nem os seguidores de Mohamed não eram nem são impulsionados pelo Espírito Santo para darem a sua própria vida por suas causas. O que levava uma Testemunha de Jeová  a não negar a sua fé, mesmo em meio ao terror, frio, tortura, nas prisões gélidas da Sibéria, na época da perseguição comunista às ditas seitas defensoras do capitalismo presente na antiga União Soviética? Não era o Espírito Santo com certeza.

O Comunista Desiludido


 Na primeira Guerra Mundial, um ex-comunista, depois de ter ouvido o evangelho pregado por um soldado inglês e ter aceitado a Jesus como Senhor e Salvador  pôde experimentar a maravilha que é o novo nascimento. Observando a postura e o nível de compromisso que as pessoas em países cristãos têm,  refletiu com o seu mestre inglês: Os comunistas dariam  suas vidas para avançarem o comunismo nem que fosse por um quilômetro, vocês cristãos conhecem e usufruem a maravilha que é o Evangelho e vivem como se nada de especial fosse para a vida de vocês.
Os comunistas vivem em função do ideal socialista, doam todos os seus bens em favor do partido e ficam com as sobras; percebo que com os cristãos é o contrário, vocês doam as sobras e ficam com a maioria de seus recursos.   Os comunistas autênticos vivem uma mentira como se fosse a maior verdade, os cristãos conhecem a verdade, mas é como se fosse irreal e distante.
Será que, a exemplo do que aconteceu com algumas igrejas na Europa, estamos mitificando o evangelho? A teologia liberal relativizou e  reduziu a essência do evangelho a um racionalismo humanista, colocando-o num cabresto limitado, humano. O resultado: vários templos, em países europeus, esvaziados, abandonados e sendo vendidos, na maioria das vezes, para serem mesquitas mulçumanas.
 

O Reducionismo Nocivo do Evangelho

Em nossa realidade evangelical sobre forte influência de tendências, ditas evangélicas, americana, segmentos pretensamente cristãos têm distorcido e adequado esse evangelho ás suas conveniências. Uma proposta antropocêntrica, onde o Deus todo poderoso está ao inteiro dispor, satisfazendo os  interesses carnais, conveniências atreladas a valores consumistas, legitimando o status-co limitado, antibíblico. Uma teologia de conveniências, alienada de todo e qualquer compromisso com ‘o outro’, com o bem estar do próximo. “Arcabouço doutrinário” desprovida de qualquer senso de justiça social.
Uma proposta triunfalista, individualista, legitimadora da exploração do homem pelo homem. Expressam-se assim: “O pobre é pobre porque é preguiçoso ou está em pecado; o rico é rico porque é trabalhador e tem a benção de Deus pode explorar a mão de obra barata. É melhor do que deixar a ralé passar fome”. Isso é simplismo, fruto de mentes alienadas. Um falso desencargo de consciência que pretende legitimar  o genocídio silencioso que assola a nossa nação.  Uma visão conservadora que tem ferido, excluído e estimulado fragmentações em grande escala no segmento evangélico. Facção que endossa a exploração injusta do homem pelo próprio homem.
A acusação contra a injustiça social profetizada por Tiago nos capítulos 2 e 5 denuncia fortemente essa realidade  dessa parte da igreja brasileira. Igreja que repete e imita àqueles que controlam o poder econômico. Segmento egoísta, acumuladora de   capitais com motivações volúveis,  materialista e excessivamente consumista, contribuinte e também mantenedora da indústria de supérfluos com etiquetas e design "belissimamente impressionantes”. Essa tendência no meio evangélico é agente de pregações superficiais, atrofiadas ou cheias de acréscimos perniciosos à Palavra; não combate o pecado que assola de uma forma profunda, forte e brutal a sociedade brasileira. Parte da igreja evangélica que é, em grande parte,  omissa, volúvel... dispersa, desunida, não sabe encarar seus defeitos com maturidade. Fragmenta-se em infindáveis pedaços.  
Essas e outras análises nos fazem compreender como são raras, no Ocidente,  pessoas verdadeiramente comprometidas com o reino de Deus. São escassos os exemplos contemporâneos de testemunhos genuínos. Talvez, quem sabe, uma perseguição violenta depure essa realidade.
Quantos dos ditos cristãos confessos confirmariam a sua fé em meio a uma oposição violenta tendo que abrir mão de seus privilégios, conveniências, confortos?
Quantos estariam dispostos a ir para o subterrâneo, para os esgotos, para os esconderijos longe dos grandes centros, dos perfumes, roupas e automóveis confortáveis?
 Quantos dos que ainda não chegaram, na escala de ascensão social, à capacidade de adquirir os bens que irão promovê-los a um nível mais alto, na pirâmide de poder aquisitivo, “descente e digno de um servo de Deus”, renunciarão aos seus sonhos sociais por causa da fidelidade a Jesus?
As instituições denominacionais, que  pretensamente se dizem legitimas representantes de Deus na terra têm pregado um evangelho fácil, desvinculado de renúncias, deslocado da cruz, com uma santidade relativa.
Legitimam a injustiça social, são omissas ao genocídio lento e silencioso que ocorre no Brasil, onde a violência, fome, falta de assistência médica, falta de assistência educacional, desagregação da estrutura familiar, dentre vários outros problemas, têm levado a nossa nação para uma seqüência de abismos cada vez maiores e mais profundos.
Noutra face da mesma moeda eclesial tem se proposto uma relação com Deus baseada em regras, leis. O pode e o não pode, dando capas fáceis de vestir, sem, contudo trabalharem o interior, não valorizando e ensinando a transformação de caráter. Estimulando uma relação com Deus baseada em troca, medo (inferno se for mal, céu se for bonzinho), descaracterizando a Graça e a Misericórdia tão óbvias no projeto executado na cruz.
Como o rebanho poderia ou poderá enxergar  a verdade do Evangelho se seus-nossos líderes  orientam dessa forma? Não temos a consciência da verdadeira face do cristianismo. Essa revelação desfocada, reduzida, tem comprometido a valorização do evangelho, impedindo a percepção do maravilhoso e espetacular projeto de Deus para toda a humanidade. Quem irá renunciar por uma causa que não tem nenhum propósito a não ser o de   “adular” o seguidor, promovendo em sua vida, tudo de confortável que se precisa? Não podemos valorizar uma causa que se limita a nos dar uma vida confortável na terra, atendendo às nossas necessidades básicas e nada mais, porque, no fundo, sabemos que isso não nos preenche como gente. Apesar da queda, somos imagem e semelhança de Deus.
Paulo  e Seu Ideal de Luta

Paulo conheceu, percebeu a sublimidade do evangelho (At. 20.24). Ele não titubeou ao saber pelo Espírito, que teria de ir a Jerusalém, sem receber maiores esclarecimentos a não ser de que passaria por prisões e sofrimentos (At. 20.23). A sua Maior preocupação não era sobreviver a todo custo, mas terminar a sua carreira e completar a tarefa recebida de Cristo: testemunha o evangelho da graça de Deus. Jonh  R. W. Stott, em seu livro The Message of Acts (A Mensagem de Atos) analisa assim essa passagem: “Os olhos proféticos de Paulo transpõem Jerusalém e os sofrimentos, pelos quais passará naquele lugar e vêem as suas visitas missionárias a Roma e Espanha, com que continua sonhando. Essa deve ser a razão de Paulo ter tanta certeza que não verá nenhum deles novamente (At 20.25)”1
Ninguém renuncia a algo se não por uma alternativa melhor, realidade melhor, ou vantagens no sentido amplo do termo. Isso é óbvio e faz parte da natureza humana.
A questão aqui é o que tem verdadeiramente valor. Jesus não sugeria o perder a própria vida (Mt 10.38,39), nem que para ser o maior teria que ser o menor, nem tampouco orientava o ser servo (Mt 9.48; Mc 10.43-45) com um propósito de confundir as mentes. Também não intencionava promover provas de fidelidade relacionadas a renúncia numa relação direta entre esforço e prêmio, mas  Jesus apresenta uma proposta  libertadora baseada em valores elevados, divinos que proporcionam o desvencilhar de valores que para o homem natural é importante, mas para os seguidores de Cristo  empecilho numa caminhada como discípulos de um Mestre de um outro reino.
Valores divinos, trazidos pelo próprio Deus criador, não se comparam com absolutamente nada que o homem possa vislumbrar, valorizar ou usufruir como bem (Ef 3.21).
 Paulo renunciou ao que ele chamou de perda: a sua nacionalidade, a sua religião e facção religiosa, sua coerência e empenho no zelo a Lei (Ef 3. 4-8). Ninguém passaria pelos sofrimentos que Paulo passou (2Co 11.22-30) se não tivesse uma consciência perfeita a quem servia e qual o fim daqueles que perseveram até o termino da missão (1Co 9.23-27).
O mundo jaz no maligno(Gl 1.4). O príncipe dessa era é Satanás (Ef 2.1,2). O Reino de Deus ainda não é absoluto em nosso tempo, no sentido escatológico. Ninguém serve ao Senhor Jesus nessa era, sem oposição feroz (1Pe 2.19-25; Jo 16.33). Querer sombra e água fresca agora é ter uma percepção distorcida das promessas. A grande maioria delas é para o porvir, promessas escatológicas, as quais o apóstolo Paulo tinha como motivação para a continuidade da caminhada, alimentando-se dessa expectativa do gozo vindouro (Rm 8.18,19).
  Os exemplos de personagens bíblicos trazidos pela igreja em nossos dias são escolhidos com muito cuidado devido à preocupação  em  legitimar determinadas teologias que colocam o homem no centro (antropocentrismo) num  reducionismo teológico perigoso.
 Uma “teologia” que tenta erguer  um deus menor (ídolo) a serviço dos interesses do homem,  baseada em determinadas passagens do Velho Testamento e coloca a nova aliança também atrelada a esse arcabouço teológico-doutrinário, relegando referências bíblicas aos porões escuros do estudo (Hb 10.1; 2Co 3.8-16; Hb 7.22; 8.7-13), tanto no VT quanto no NT, que são fundamentais para um entendimento correto da Palavra de Deus.
 Temos visto novos escritos com peso de Escritura surgindo aos montes desde as ultimas décadas do século XX, adentrando o século XXI. Tem sido freqüente a expressão: “Não se pode ler a Bíblia com entendimento, sem ler o nosso livro ou nossa apostila”

João Batista O Maior dos Nascidos de Mulher 

Quantos poderão hoje afirmar que  João Batista é referencial, realmente é o maior dos nascidos de mulher conforme Jesus afirmou em testemunho acerca de sua pessoa (Mt 11.11)? Pouco se fala, se prega acerca de João. Para muitos não é um bom exemplo, não é conveniente se falar de alguém tão esteticamente “alternativo”, tão desprendido, pessoa que parecia desprezar a aparência; a sua alimentação era básica e simples demais (Mt 3.4). O que levou  João a abrir mão de seus direitos de herança na qualidade de filho de sacerdote? Ele poderia vestir-se do fino linho e se banquetear das iguarias do templo.
Depois de 400 anos de silêncio profético surge um profeta que não freqüenta o templo, não usa sua prerrogativa de sacerdote, é cheio do Espírito Santo desde o ventre da mãe (Lc 1.15). A sua missão era a de ser o arauto, o abre alas para a eminência da chegada do Messias, do Santo de Deus, do Salvador do Mundo. Sua missão era advertir, ele bradava: “arrependam-se pois o reino de Deus está próximo!” (Mt 3.1).
Meditar acerca de João é se deparar com um personagem singular no Cristianismo. A sua humildade revelada na  sua perfeita consciência de quem ele era, apesar da pressão de muitos que o confundiam com o Messias, isso poderia tê-lo deixado soberbo. Ele se enxergava, sabia quem era e qual a sua missão, os seus limites, fator importante, fundamental para produzirmos na função certa no Corpo de Cristo. Quem somos? Quem eu sou? (Mt 3.11-17).
Houve necessidade de renúncia, João abriu mão das  regalias naturais como herdeiro do sacerdócio de seu  pai Zacarias.
 Ao invés das iguarias do templo, mel e gafanhoto; ao invés das elegantes roupas de puro e fino linho próprias dos sacerdotes, vestia uma roupa grosseira feita de pelo de camelo; ao invés da proteção, ostentação promovida pela  guarda do templo, o seu refúgio era em cavernas no deserto. O templo estava tomado por hipócritas, os quais João chamava de raça de víboras (Mt 3.7) a exemplo de Jesus que também os chamava de sepulcros caiados (Mt 23.27), pessoas legalistas, escravas da aparência, da vaidade da ambição por dinheiro, reverência, honra e fama(Mt 23.1-7).

Pr. Pedro Luis 

1. Sttot, Jonh R. W. – A mensagem de Atos  p.368

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