quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Um Revólver, Uma Bíblia

Algumas experiências no sertão foram profundamente marcantes, levarei para a eternidade.
Em um belo momento de minha trajetória ministerial e missionária conheci a pessoa e um pouco da história de seu Luiz. A sua caminhada de fé revela a beleza da obra da cruz externada em vidas que acompanhamos na caminhada cristã.
 O irmão Luiz era violento. Um violento calmo, de fala mansa, homem de palavra e que não levava desaforo para casa. Cismado, não gostava de brincadeira. Para ele as coisas se resolviam logo na bala.


Este estilo de ser não é incomum no sertão nordestino. Homens que valorizam a honra, e respeitam mais o revolver que a Bíblia. Era assim que pensava e agia o seu Luiz, morador de uma pequena cidade do sertão paraibano. Não era difícil ameaçar alguém de morte e ser ameaçado, principalmente em sua mocidade. Com este estilo de vida, ele adquiriu muitos inimigos e, alguns, de morte.

Em determinado dia foi pego numa emboscada, levou muitos tiros. Não morreu. Segundo ele, porque era escolhido de Jesus. Depois que seu Luiz se recuperou dos ferimentos, passou a refletir mais sobre a vida, e se valia à pena viver. Foi quando, num belo dia, um crente se aproximou dele e dos demais cabras valentes que estavam reunidos embaixo de um juazeiro e informou acerca de uma reunião na casa de seu Zé Nicolau, no sítio Olho d’Água. Seu Luiz ficou intrigado com a ousadia e segurança daquele crente. Afinal de contas ele e seus companheiros eram famosos pela ignorância e violência. Sem saber exatamente porque, ele disse que ia. E foi. E gostou do que ouviu, passando a frequentar a igreja dos crentes, contudo, só ia armado. Ele não confiava em ninguém, só em seu revólver.



Um dia, na igreja dos crentes, ele se sentiu mal por estar de revólver na cintura. Meditou dentro de si e chegou à conclusão que não era certo estar dentro da casa de Deus armado. Foi para casa, chamou um compadre dele e propôs a venda da arma. O amigo sugeriu uma troca por um terreno, um lote de casa. Seu Luiz concordou e fechou  negócio. Pouco tempo depois ele se converteu de verdade, aceitando a Jesus como salvador e senhor. O irmão Luiz hoje é um homem manso, ainda corajoso, mas, só para pregar o Evangelho. Um evangelista de mão cheia por sinal.



A filha do irmão Luiz casou-se alguns anos depois que Luiz se converteu. Ela disse uma frase que ele não esquece: “Pai que bom que o Senhor trocou o revólver pelo terreno, eu e meu marido temos um lugar para construir a nossa casa. Muito obrigado meu pai”. O Evangelho quando chega de verdade transforma vidas.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Igreja - É preciso Rever Conceitos

Irmãos, é muito difícil cumprir a tarefa de expansão do Reino. Isso envolve vidas alcançadas. Vidas alcançadas valem muito e são cobiçadas por forças malignas com muita intensidade.

O processo de discipulado - por décadas equivocado, distorcido - pariu uma geração superficial, refém de resultados imediatos.

A carnalidade da liderança na qual estamos inseridos (não me excluo) é no mínimo, comprometedora. Se não houver uma intervenção miraculosa do Espírito Santo, continuaremos a expandir, aos trancos e barrancos, uma igreja franksteiniana, uma aberração inofensiva à organização dos anticristos.

Somos herdeiros totalmente influenciados pelas igrejas dos grandes centros como Recife, Rio, São Paulo. Esses centros urbanos buscam as variantes teológicas dos países exportadores de conhecimentos científico e tecnológico. Quero lembrar aos que me lêem neste momento que a Teologia Cristã Bíblica surgiu na periferia, na pobreza, na contracultura, naquilo que sobrevivia à margem do dominante. Viva a Galiléia!

No Brasil, hoje, o nominalismo é evidente e atinge grande percentual. Muitos de nós, líderes, somos reféns da necessidade de números pelos números e fazemos qualquer negócio por um prosélito - de preferência que ele já esteja pronto pela igreja concorrente ou que entendamos como herética, "o diabo é sempre o outro".

Nossas jovens ovelhas estão casando grávidas. O apelo sexual na mídia é mais forte que a nossa noção de moral, às vezes falsa, legalista ou totalmente ausente.

Nossas fragilidades como líderes

Muitos de nós, motivados pelos valores superficiais e fúteis nos quais o ter determina o ser, não sabemos diferenciar consumismo do viver com dignidade, com o mínimo indispensável.

Muitos de nós ainda não resolveram seus problemas sexuais, desvios de personalidade, traumas, complexos. Precisamos de "cura interior (?)". Precisamos de educação sexual. Não sabemos tratar adequadamente os nossos cônjuges na cama.

Nós homens temos problemas de afirmação, aceitação. Temos problemas com o poder, não sabemos lidar com ele. Por isso oprimimos, perseguimos, ferimos. Sentimo-nos abandonados, precisamos de fé. Sentimo-nos discriminados, desprezados, impotentes...

Alguns de nós, pastores do interior, têm medo do juiz, do promotor. Outros recebem a ajuda do prefeito e do vereador. Leia-se: vendemos votos. Fechamos o curral da igreja para quem dá mais. Vendemo-nos a preço de banana. Por outro lado, repetimos o coronel, repetimos o eleitor sem esperança, somos também gado encurralado por um sistema que parece natural.

Socorro, socorro, socorro, muitos de nós pedem socorro, pedem luz, pedem saída. Na dimensão da esperança coletiva, como parte da nação que somos, tenho escutado e discernido os semblantes com a esperança se esvaindo, dizerem: Os que estão no poder nos traíram! E eu afirmo "abaixo a revolução dos bichos". E olha que nem passamos pela profecia do livro 1984, de George Orwell.

Reação

Outros reagem, gritam, brigam, bradam: não tem que ser assim, isso pode mudar, chega! Eu sou um deles. Existem, em contrapartida, pastores rejeitando compra e venda de votos e favores em vésperas de campanha eleitoral.

Tem nego revendo a abordagem evangelística: Não mais anti-católica, não mais condenatória, mas libertadora, amorosa, acolhedora... esperançosa, cheia e dominada pela graça.

Temos revisto os conceitos de sexualidade, procurado nos desintoxicar das influências pornográficas; reeducando-nos quanto a referências estéticas – O belo à luz das Escrituras - tentando desassimilar o aleijado referencial de mulher-objeto.

Temos valorizado a oração como fundamental para as conquistas individuais e ministeriais. Relacionamento com Deus intenso; como conseqüência, relacionamento com o próximo, com a comunidade, com os excluídos, melhor... Intenso.

Temos resgatado a nossa cultura a nossa cor-raça. Exclamou recentemente o Pr. Neto: "A minha auto-estima melhorou quando descobri que cabelo pixaim não é cabelo ruim, já que quem falou isso é suspeito por ter cabelo liso e ser o dominante branco europeu." Ser negro é lindo!

Desabafamos: enganaram-nos, nos enganaram, mas há uma esperança: Jesus nos deu o privilégio da desilusão, mas, ao mesmo tempo, com uma alternativa viva e indestrutível, compensadora: ele vive, venceu a morte, venceu a mentira, venceu o diabo.

Tem muito mais a externar, muito mais a desabafar, a refletir, a combater. São muitas nuances na caminhada, muitos desafios

Acredito na não-violência, perdão e um intenso trabalho de resgate cultural, numa mobilização cristã assumida, denunciando de forma profética: acredito no poder da oração, do jejum. Temos trabalhado nisso também no sertão.

Pedro Sertão Silva
prpedroibis@gmail.com