quarta-feira, 1 de julho de 2015

Sua Igreja é Um Curral ou Aprisco

Após ler uma sequencia de artigos do Bispo Josué Adam Lazier, fiz algumas reflexões acerca da nossa realidade na dimensão de relacionamento pastor-ovelha, pastor e sua equipe de líderes.
Antes, faz-se importante definir aprisco e curral, aproveito as objetivas e precisas definições do autor referido:
Aprisco: Nele ovelhas se encontram, se aquecem e se protegem. No aprisco, considerando a perspectiva bíblico-teológica, as ovelhas conhecem o seu pastor. A figura do aprisco indica mais do que meramente um local onde as ovelhas se abrigam, indica a relação de confiança entre as ovelhas e o pastor. A palavra grega utilizada apresenta este sentido. “Parece ser um quintal na frente da casa, cercado por um muro de pedras que, provavelmente, tinha abrolhos em cima”. [1]
Currallugar onde o gado é reunido para receber o sal, a ração e as marcas dos proprietários. 

No contexto do ministério pastoral, que significam as imagens do “aprisco” e do “curral”? No aprisco há comunhão, identificação e reciprocidade em amor. O pastor cuida das ovelhas e as ovelhas deixam-se ser cuidadas, conquistadas pelo amor, por saberem que não são manipuladas, não são coagidas, não há chantagem, trocas nem jogo de interesses. No curral há controle centralizador, autoritário do pastor, seja por sedução ou compra, seja por imposição, através do medo ou incutindo sentimento de culpa nas ovelhas. A figura do marcar as ovelhas com ferro em brasa aponta para um reino particular em detrimento do reino de Deus que transcende os currais locais. O aprisco é lugar de refrigério, de apoio, de consolo, de amigos, pastor amigo das ovelhas, ovelhas amigas de ovelhas, uma identificada com as outras. Elas entendem: “Temos o mesmo problema: a luta contra o pecado”, não se acusam mutuamente, muito menos condenam. Uma comunidade terapêutica. 

Cuidado(!) Pastoral

O pastor do aprisco ama, este fato/sentimento é refletido na atitude de buscar a ovelha perdida, não rejeitar, não condena ( Jo 10.1-7). O buscar a perdida é ‘Chamados para fora’ (Eclésia). A parábola em Lucas revela que o pastor deixou as demais, 99, no campo para ir atrás da perdida, denotando valor individual, pastor de aprisco valoriza indivíduos não números. Olha nos olhos, sabe o nome de cada uma. Trata individualmente; tem prazer no bem estar de todas, em cuidar, restaurar, carregar nos braços por um tempo, até que a ovelha possa caminhar por si. Não associa valor monetário a seu trabalho, não tem preço. O Curral: Ezequiel denuncia a realidade apropriada: exploradores, manipuladores, opressores, sem afeto e sem misericórdia (Ez 34.1-10). Utilizam a realidade de escravidão do 
rebanho, de miséria em benefício pessoal, não querem mudanças, libertação social (resgate), nem libertação emocional, espiritual, controlam com o medo, manipulam gerando sentimento de culpa no rebanho. Têm prazer em subjugar, são mercenários, compactuam com o sistema vigente. A partir da realidade de vulnerabilidade do rebanho, mentem, vendem ilusões. Deixam os lobos, (às vezes eles são os próprios lobos), iludir, explorar, aterrorizar, porque não amam o rebanho, o mesmo é só “massa de manobra,” de exploração.

O Pastor Deve Lavar e Enxugar os Pés do Outro

Quando reflito, neste contexto, sobre o relacionamento entre líderes: Na imagem do curral enxergo um relacionamento autoritário, centralizador. Os líderes, hierarquicamente subalternos são tratados a partir de resultados. Quem tem um rebanho maior, melhor é tratado, quanto maior for o templo sob sua administração é mais admirado. Relacionamento de interesses, baseado no status, em aparência, em quantidade. Concorrência e disputa, desperta e alimenta inveja, ciúmes. 
Como expressou o pastor indiano. Samuel Kamaleson em 2004, no Congresso da Sepal em Águas de Lindoia - SP: “... Sou médico veterinário e conheço muitos advogados, professores, engenheiros, profissionais das mais diversas áreas. Sei que há inveja entre pessoas, nas várias funções, mas, não tão evidente e intensa como entre os pastores.” 
No curral o líder é estimulado a produzir por constrangimento e ou competição. No aprisco o líder é conservo, cooperador, bate papo argumentativo que estimule a voluntariedade, motivacional, correta, em servir. Pastoreio espontâneo, sem autoritarismo, nem coação. O líder-pastor do aprisco serve ao outro, dá exemplo, motiva. 
Os pastores, presbíteros, diáconos coliderados sentem-se livres. Não servem por obrigação, como um fardo, mas são voluntários. Pastoreio de líderes transparente, honesto, sem maquiagem, nem subterfúgios. A toalha e a bacia (Jo 13.1-17), é a síntese do serviço próprio do pastor que pastoreia líderes na proposta do aprisco. “O projeto da Igreja não é um projeto de poder, mas de serviço, DEUS não colocou em nossas mãos um cetro e uma espada, mas uma bacia e uma toalha, nós servimos.” (Ed René Kivitz).

Jesus Pastor

Jesus pastor servo, amoroso, o pastor que deu a vida pelas ovelhas, por amar incondicional. Líder provedor, que protege contra os ataques do lobo, contra as heresias, as falsas doutrinas, orienta a confiança em Deus no que se refere à manutenção, principalmente para àqueles que têm um chamado para ser peregrino, no serviço ao Senhor. Um pastor estável, confiável, vai até o fim com a sua palavra com seu compromisso, de aliança; pastor que respeita a ovelha, protetor, mas, capacitador, treinando para a vida (fazedor de discípulos que, também, fazem discípulos), para a caminhada. Identificado com a dor a fragilidade das ovelhas no sentido integral. Luta pelas causas das ovelhas do aprisco, pelas, das que estão de fora também. Um pastor que tem sede de justiça social, não conformado com a opressão, promove libertação à ovelha, conscientizando-a para ser agente libertador também, do outro.

Igreja que pastoreio: Curral ou aprisco?

Quando me refiro à igreja local que lidero e percebo/constato uma comunidade de pessoas acolhedoras, solidárias; consciente quanto a ser e fazer a diferença onde está inserida, alegro-me. Vejo-me ensinando a graça salvadora, santificação: sem a qual não se verá a Deus, (Hb. 12.4); conscientizando acerca de cidadania, politizando-a, neste contexto, promovendo projetos de resgate social, vivendo a “Teologia do Abraço”: um par de braços para abraçar, dois olhos que prestam atenção à necessidade do outro, valem mais do que mil palavras. Nisso enxergo e me vejo um aprisco. 
Flagro-me, também na contradição, na inconstância. Tentado, às vezes caindo em tentação, quanto à imposição de ideias, manobras e abusos de poder, às vezes, refém das demandas denominacionais, cobranças de resultados visíveis à instituição; impulsos carnais como reação ou respostas para outros líderes eclesiais; com pré-conceitos inconscientes aflorados, dificuldades de receber os excluídos em nosso seio. Contradições permeando a realidade de aprisco, formas deformadas, parecendo curral. Um comunidade cristã com realidade de aprisco, mas com aspectos e facetas de curral ainda.

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[1] Wesley, João, Sermões, Vol. II, pg 91-92.