quinta-feira, 19 de abril de 2012

Apóstolo Pedro o Autoconfiante - Sem o Espírito Santo não há obra de Deus - VI

Lc 22.31-34

        
          Somos constantemente tentados em buscar méritos dentro de nós, em confiar em nossos talentos e experiências,nas reservas financeiras, na estabilidade do emprego que gera acomodação, na formação acadêmica, até na capacidade humana de uma forma geral, para executar a obra de Deus.
          Quando a crise se instaura, a pressão espiritual se torna crítica e todos os talentos não mais respondem satisfatoriamente, numa relação direta com crescimento, lucro e badalação triunfalista, invariavelmente as reações são de duas formas: ou passa-se a buscar então a Deus através da oração e jejum, pedindo socorro para um resgate com restauração imediata, ou se debanda para o outro lado, sendo instrumento de Satanás da forma mais terrível, com uma fachada “gospel”, sendo consciente dessa realidade ou não.
          O que temos no texto proposto é a reação de um discípulo de destaque, escolhido como um dos doze apóstolos. Uma pessoa privilegiadíssima em virtude de ter caminhado por aproximadamente três anos com o Mestre dos mestres, Senhor dos senhores e Rei dos reis.
          Pedro também recebeu a mais profunda teologia, a mais perfeita soteriologia, a mais explicita e profunda cristologia, o próprio Cristo pessoalmente, vivendo e falando acerca de si mesmo. Conviveu com a Perfeição em forma de gente, com o Verbo que se fez carne.
          Ele experimentou o sobrenatural de uma forma maravilhosa: andou sobre as águas (Mt.14.29); estava no monte da transfiguração quando apareceram glorificados Moisés e Elias juntos de Jesus (Mt.17.1 - 4). Viu vários milagres, foi usado, antes da ascensão do Senhor, expulsando demônios e curando pessoas.
         Não é fácil para um crente com o currículo de Pedro manter a humildade e a total dependência para com Deus, buscando em seu Espírito ajuda constante para a obra proposta.
         O Mestre já sabia que estava na eminência de sua prisão. Naturalmente havia uma preocupação com os discípulos. Com o que iria acontecer, como eles iriam reagir ao desenrolar dos acontecimentos. Antes de falar diretamente com Pedro Ele exortou os discípulos à humildade. Devido o surgimento de uma discussão de quem seria o maior entre eles, Jesus declarou: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve. Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações. E eu lhes designo um Reino, assim como meu Pai o designou a mim, para que vocês possam comer e beber à minha mesa no meu Reino e sentar-se em tronos, julgando as doze tribos de Israel” (Mt.22.25-30).

O maior é o menor, o maior é aquele que serve.

          Complicada de se colocar em prática é a humildade, na perspectiva humana decaída. Saber caminhar sem nenhum sentimento de orgulho e independência quando o “sucesso” vem. O isolamento, em muitos casos passa a ser inevitável. “Eu não caibo mais em qualquer lugar”, afirma com o ego inflado, o “bem sucedido". O que Pedro vivia era fabuloso demais, sublime demais para uma pessoa com a natureza decaída.
          Jesus alerta confrontando a Pedro: "Simão, Simão, Satanás pediu vocês para peneirá-los como trigo. Mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E quando você se converter, fortaleça os seus irmãos” Jesus falou na frente dos demais discípulos que Pedro precisava se converter. Satanás pediu a Deus para peneirar os discípulos como um todo, inclusive Pedro, mas Jesus, na frente de todos alerta a Pedro acerca da necessidade da genuína conversão para ser protegido dos ataques malignos e poder ajudar os demais discípulos.
          Pedro não aceitou de forma alguma aquela confrontação, denunciando a sua vulnerabilidade e reagiu afirmando está pronto para ir com o Senhor para a prisão e para a morte. O Mestre ignorando o que Pedro havia falado disse-lhe a realidade futura próxima: negação do compromisso com O Mestre e por três vezes antes que o galo cantasse.
          É complicado para alguém já estabelecido como Pedro, uma pessoa com fortes indicativos de liderança até para com os demais apóstolos, aceitar aquele descredenciamento. O Senhor estava promovendo um tratamento de choque imprescindível para “quebrar” a autoconfiança e o orgulho já evidente e que dominava, de uma forma comprometedora, a Pedro.
          Ele estava estabelecido e seguro, afinal de contas o Messias era o seu líder imediato, tudo caminhava bem, apesar da oposição forte do Sinédrio.
          Pedro acompanhou o Mestre em vários momentos críticos em que tentaram apedreja-lo e prendê-lo e nada aconteceu. Estava tudo sobre controle. Pedro podia sonhar, idealizar uma nação judaica livre. Finalmente estava próxima a instauração do Reino Messiânico.
          Não é incomum fazermos planos, idealizarmos uma porção de estratégias convenientes aos nossos interesses e colocarmos como sendo projeto de Deus para as nossas vidas e para os demais que estão ao nosso redor.
          Quando Pedro afirmou está pronto para morrer por Jesus ele não quis fazer média, ele não mentiu. Pedro estava pronto para morre pelo Jesus que ele concebia, segundo o que idealizava como seria o Messias. A prova cabal disso é refletida em sua reação inicial quando chegou à guarda do templo no monte das Oliveiras para prender Jesus. Pedro pegou uma espada e decepou a orelha de um servo do sumo sacerdote (Jo.18.10).
          Ele estava pronto para morrer por um messias político que mobilizasse a população e derrubasse o império romano ocupando o trono de Israel. O Cristo que Pedro enxergava não era o mesmo Cristo que estava a caminho da cruz.
          O Deus que muito enxergam e se relacionam nem sempre corresponde com o Deus verdadeiro. Idealizam-se projetos das mais várias tendências para Deus sem, contudo, consulta-lo para saber se o projeto é o segundo a Sua vontade.
          Nem sempre idealizar estratégias, mesmo de evangelismo ou missões para Deus, é segundo a vontade dEle. O projeto de Deus vem de Deus para o homem e não do homem para Deus. Precisamos consultá-lo para saber qual a Sua vontade.
          Após aquela impulsiva e agressiva reação Jesus se dirige a Pedro dizendo: "Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo.18.11) revelando a Pedro que havia um propósito de Deus naquele momento de prisão e que todos os propósitos iriam serem cumpridos.
          Na versão atribuída a Mateus a declaração é mais contundente "Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?" (Mt.26.52).
          A grande questão da proposta não é o poder para execução da vontade de Deus, mas a forma: as armas que seriam utilizadas. Uma forma inédita, absurdamente diferente e aparentemente sem nexo e contraditória: a cruz. A arma principal passou a ser o amor, a não violência, o dar a outra face, o amar o inimigo.
          Pedro não entendia mais nada. Desabou todos os referenciais. A expectativa triunfalista de governo atrelado à tomada de poder desmoronou. Os referenciais, os projetos de Pedro para o Messias não corresponderam. "E agora?! Para aonde irei? o que farei? Que historia é essa? Preciso rever tudo". Provavelmente pensou Pedro atordoado, tonto, desnorteado.

É preciso o ideal humano desmoronar para o ideal divino se estabelecer

          Muitos servos de Deus passaram e passam por esse processo. São pessoas bem intencionadas e sinceras para com Ele, mas não aprenderam ou não quiseram entregar seus projetos e sonhos ao Senhor. Desiludidas, em boa parte, perderam o rumo, adoeceram na alma, ou se desviaram do alvo de tal forma que, apesar da sinceridade, estão atrapalhando a obra de Deus. Naquela perspectiva de, na melhor das intenções, legitimarem a morte de Jesus com os perfumes e óleos, conforme analise das mulheres indo ao tumulo, comentado no outro texto.
          Quem se recuperar de uma grande queda tem muito mais chance de ser intimo de Deus.
          O Pedro que estava, antes da prisão de Jesus pronto para morrer por Ele, não sabia mais de nada. Os seus valores e referenciais estavam em cheque. Nada era seguro naquele momento. Os fatos se sucediam em velocidade. Não dava para raciocinar direito, tudo estava meio confuso.
          Quando perdemos os fatores que nos trazem estabilidade ficamos vulneráveis. Pedro estava vulnerável, frágil e amedrontado.

          Perguntaram a Pedro, uma vez, duas vezes, três vezes se ele era um deles, um dos seguidores de Jesus. Disseram a ele que só podia ser já que seu modo de fala era similar aos galileus que andavam com Jesus. Pedro negou uma vez, negou segunda vez e, segundo o evangelho escrito por Mateus ele negou a Jesus por ultimo amaldiçoando e jurando afirmando: "Não conheço esse homem!” quando alguém afirmou que certamente ele era um deles (do grupo de Jesus).
O galo cantou. Pedro lembrou-se de sua promessa ao Mestre e lembrou que Jesus profetizou a negação atrelada ao o canto do galo. Ele chorou amargamente (Mt.26.73-75).
          Criar expectativas de si mesmo, baseado em autoconfiança, para com Deus pode ser frustrante.
          Muitos que se frustram na obra de Deus tendem a desistir e voltar a fazer as coisas que praticavam antes. Pedro e outros discípulos voltaram a pescar (Jo.21.3), outros voltam a serem depressivos, outros a beber, alguns a pratica de sexo ilícito...
          Pedro muito provavelmente se autodemitiu, desistiu de servir a Cristo. A tendência de querermos decidir sozinhos se estamos ou não aptos para fazer a obra de Deus é lamentavelmente frequente.
         Um anjo que apareceu às mulheres, numa clara conspiração de resgate e valorização divina às mulheres, preferindo-as como pioneiras no anúncio da vitória de Cristo sobre a morte, pedem para avisar aos discípulos e, de forma personalizada a Pedro acerca da ressurreição do Senhor (Mc 16.7).
          O Mestre, já ressuscitado a beira mar, vai ao encontro dos discípulos pescadores e os orienta para jogarem a rede do lado direito do barco. Eles não reconheceram quem falava. Os discípulos passaram a noite toda tentando pescar alguma coisa, mas nada encontraram, podia ser que eles não soubessem como era seguir a Jesus, mas pescadores eles eram, mas, nada de peixes.
        Quando alguém tem um chamado missionário e está fora do propósito de Deus, nem o que ele domina com competência profissional, haverá rendimento produtivo satisfatório, até mesmo  o trivial será mal executado. Não há prosperidade.
          Em obediência aquele homem que com segurança os orientava, lançaram a rede. Depois a mesma quase se arrebenta, tamanha foi a quantidade de peixes (Jo.21.1-14).
          Não se faz nada com competência, quando se tem um chamado para servir a Deus, se não for com a orientação do Espírito Santo.
          Nas linhas abaixo  refletiremos sobre a sequência do encontro à parte com Pedro, no momento em que Jesus passa a interroga-lo. Imaginemos o que se passava, naquele momento, na mente do apostolo:
          Após a refeição Jesus passa a indagar a Pedro: “Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?” Disse ele: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo". Pedro deve ter pensado:
- Pronto, agora será a hora que Ele vai me falar as verdade que tenho de ouvir. E com justiça. Talvez vá somente comunicar o que já sei: a minha incapacidade de ser seu seguidor e me orientar a continuar pescando.
          Jesus usou o verbo agapaõ (amar desinteressadamente) e Pedro respondeu com phileõ (amor fraterno, menor em intensidade e compromisso). Presumo que Pedro estava mais comedido, devia ainda pensar:
- Eu disse que estava pronto para morrer por Ele e o neguei várias vezes, agora eu vou ficar é quietinho por aqui. Eu não sei é mais de nada.
 Disse Jesus: 
- Cuide dos meus cordeiros

Pedro pensou:
- Como pode, ele está me readmitindo! Eu nem respondi a altura, eu falei de um compromisso menor!?

 Novamente Jesus disse:
- Simão, filho de João, você me ama?
De novo usou agapaõ. Jesus pergunta pela segunda vez, Pedro deve ter reagido em seu intimo assim :
- parece que a primeira resposta não tinha valido. Será que Ele estava só me testando?
 Pedro respondeu então:
- Sim, Senhor, tu sabes que te amo.
           Pedro insistiu em responder com phileõ, ele não estava mais em condição de ousar, a modéstia estava fazendo parte de sua estrutura.
 Disse Jesus:
- Pastoreie as minhas ovelhas".
          A segunda vez que o Mestre falou da sua readmissão pode ter deixado em Pedro uma impressão de aprovação, de que o ocorrido na verdade não foi tão grave. Na verdade ele poderia ‘ser o bom’ que antes pensava que era.
  Pela terceira vez, Ele lhe disse:
- Simão, filho de João, você me ama?
           Dessa vez o Senhor usou o mesmo verbo que Pedro utilizou para responder as duas primeiras perguntas, o phileõ. Isso, provavelmente confrontou o já combalido discípulo. E agora? A dúvida, o medo, a vulnerabilidade devem ter voltado com toda intensidade.
Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez "Você me ama?" E lhe disse:
- Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo.
          Pedro poderia ter acrescentado assim: Tu sabes que eu não sou muito, conheces o meu coração, conheces o meu passado, o meu presente, sabe de tudo, sabe o meu limite, das minhas inconstâncias, sabe que, pelo menos te amar como amigo é possível.
  Disse-lhe Jesus
- “Cuide das minhas ovelhas Digo-lhe a verdade: Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”.
          João afirma que Jesus estava dizendo a forma com que Pedro iria morrer por amor a Ele. Como se dissesse: Só os nascidos de novo, cheios do Espírito Santo e escolhidos por Deus podem ter esse privilégio de ser mártir. Não é de qualquer forma de qualquer jeito que se sofre por amor ao Evangelho. Só os escolhidos e capacitados pelo Pai.
          A tradição histórica da igreja afirma que Pedro foi crucificado, em sua velhice, de cabeça para baixo, por ter alegado não ser digno de morrer da mesma forma que o Senhor.
          Deus usa a nossa formação teológica, usa a nossa experiência, usa os nossos talentos naturais, a nossa inteligência, mas, tudo isso sem o controle do Espírito não adianta na obra de Deus.

Um comentário:

  1. Muito bom. Bem melhor. É isso mesmo! Vai em frente!!! Acho que finalmente os discípulos aprenderam a lição; se não, não estaríamos nós aqui, séculos mais tarde. Eles teriam concentrado todo poder neles mesmo, não teria passado as verdades da Palavra para outros e teriam destruido muitas pessoas e a obra de Deus no mundo.

    Deus abençoe

    Abraço

    Barbara

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