segunda-feira, 25 de março de 2013

Racismo, Homofobia, Marcos Feliciano e o Enfrentamento

Os líderes evangélicos, pós-evangélicos, pentecostais, neo-pentecostais .. Como queiram chamar, utilizadores da mídia televisiva, alcançaram níveis de evidências sem precedentes no Brasil. Alguns enveredaram na carreira política e estão ocupando cargos estratégicos com muita visibilidade, caso do Marcos Feliciano.
Recentemente, ele assumiu a Comissão dos Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, sob veementes protestos por parte de movimentos organizados e articulados, defensores dos direitos dos negros e homossexuais, em Brasília. 
A pressão que este popular pastor recebe nestes dias, leva-me a refletir acerca do nível de preparo, sensibilidade e profundidade da liderança midiática.
Pr. Marcos Feliciano
Neste contexto fui provocado por uma amiga, residente na Capital Federal em assistir a um vídeo com o Pr. Marcos Feliciano pronunciando-se em um culto, defendendo-se das críticas e protestos direcionados a ele. Após assistir o vídeo analisei: Ele alegou que Noé amaldiçoou os povos descendentes de Cam e este povo é o povo negro africano – Comento: A questão da maldição de Noé já se perdeu nos milênios passados e não há traços ou evidências concretas para se afirmar esta relação com o referido povo.
Trazer aspectos de guerras, desastres e doenças epidêmicas contemporâneas (este exemplo foi citado no vídeo), atrelados a Noé e sua maldição é de um simplismo constrangedor.
 Quando o pastor deputado afirma, na gravação, ser a maioria da população da África do Sul composta de brancos - na verdade a população branca não passa de  13% - ele se expõe como um desconhecedor básico de geografia.
 Quase todos os povos, nos diversos continentes, historicamente, tiveram seus auges como civilização: Os Maias, os Astecas, os Incas (nas Américas), Mongóis na Ásia, inclusive os povos africanos. Temos evidências, se ficarmos apenas com a Bíblia, referentes à civilização avançada na Etiópia.
Zumbi, símbolo da resistência negra.
A Europa branca foi vitima de pestes devastadoras e guerras infindáveis. O continente passou por um genocídio sem precedentes na história da humanidade na primeira metade do século XX (primeira e segunda guerra), dezenas de milhões de pessoas mortas; no Japão bombas em Hiroshima e Nagasaki, furacões que arrasaram partes dos EUA, terremotos devastadores com tsunamis desastrosos...
O que ocorre são misturas de fatalismos com realidades geológicas e climáticas combinadas com a dureza de coração, cobiça, mesclado com intolerância, ambição e ódio, entranhado como realidade estrutural – pecado - nos humanos que povoam o planeta.
Neste contexto temos um Deus bom que intervém, quando quer, promovendo livramentos, impedindo que os homens se destruam, não importando cor da pele.
Uma analise grave e muito preocupante é a constatação de que a cultura racista velada, às vezes “aveludada”, brasileira gerou várias gerações com discursos, ações e reações racistas.
Não chegamos a ter em nossas igrejas evangélicas e nas correlatas, a separação-apartheid, pela cor da pele: igreja para brancos e igreja para negros. O apartheid aqui é social: igrejas para ricos e igrejas para pobres. Esta realidade é mais corriqueira do que muitos imaginam.
O racismo em toda a sociedade brasileira é muito medonho pelo seu caráter hipócrita e implícito. Ilustro o que quero expor com este exemplo: Conheço alguns pastores evidentemente negros (o evidente é em função da miscigenação ampla no Brasil), com discurso de branco, quando analisam a questão do racismo, não se situam no contexto, na condição de negro que o são. Inclusive Marcos Feliciano é um mestiço que não se reconhece como tal.
A minha tristeza é pelo fato de que estes pastores, à exemplo de muitos líderes em outras esferas na sociedade brasileira, não querem despertar, muito menos assumir a sua negritude. No geral o negro brasileiro, apesar da visível evolução de consciência racial refletida em todas as esferas sociais, a maioria, infelizmente, ainda se “embranquece” no discurso e na aparência - estética, para aceitar-se e ser aceito pelo outro.
Quanto ao homossexualismo: na gravação, o pastor expõe a temática de forma pejorativa, sem respeito algum e sem profundidade. A posição bíblica deve ser defendida, mas evitando termos ou construção de imagens caricaturadas e depreciativas ao homossexualismo.
Um detalhe sério no contexto do Brasil contemporâneo: a realidade fora dos limites dos templos é outra. A população no geral observa os evangélicos, principalmente os televisivos, com muita atenção e fiscalização. Parece que boa parte dos pastores midiáticos ainda não percebeu.
Existe um seguimento “evangelicofóbico”, esta parte da população não vai ser “convencida” ou “acalmada” só com argumentos bíblicos, nem com as técnicas usuais de persuasão e manipulação emocional corriqueira. Eles estão atentos às ações lesivas, de exploração e engano, há anos, praticadas impunemente, por nossos ágeis e competentes animadores.
Manifestação gay
Os pastores televisivos têm adversários ardilosos, maliciosos, conhecedores da lei e de nuances por trás delas. Querer adentrar em “territórios do poder”, por décadas controladas por eles, é perigoso.
Na mesma reflexão o Estado é laico e não tem as Escrituras como referência norteadora. Os pastores da TV precisam se embasar mais na temática do racismo e homossexualismo, do índio, da mulher, do aborto ler mais sobre o assunto, perceber as informações bíblicas sobre as minorias em seu contexto, no ângulo correto.
Acrescento: O seguimento mais visível do “mundo gospel”, pratica uma ética comprometida, frágil, para não escrever quase inexistente. Precisam tapar as suas brechas com um bom material chamado confissão e arrependimento, apelando para a graça plena em Jesus.

Mas, ainda não é o fim,
Pr. Pedro Luís

prpedrro@gmail.com 

11 comentários:

  1. Sérgio Cerqueira3 de abril de 2013 15:05

    Gostei da parte que, de certa forma, você mostra que os opositores são ardilosos, conhecem o terreno, enquanto esse ídolos goslpel são inocentes em política. Tomar de assalto a CDHM foi um ato infantil. Se tivessem somente feito a maioria, já atingiriam os objetivos sem esta exposição desnecessária da presidência. Mas isso é apenas uma parte da história, como discordo de qualquer estratégia dessa turma, nem faço questão que acertem. A maioria não tem histórico nenhum de defesa de direitos humanos e foram para a comissão com o propósito de barrar tudo que puderem.

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  2. Excelente texto!!! Gostei demais.
    Pedro, eu também estou escrevendo um texto no qual me posiciono em relação a essas questões.
    Assim como você, não tenho nada a ver com Feliciano, ao mesmo tempo em que entendo a questão bíblica.

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  3. Mais uma vez sua mente arguta e sábia faz com que um texto se torne claro, mas também profético. Parabéns!

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  4. Olá, Pedro, a paz do Senhor! Muito bom o seu texto. Parabéns! Abraços.

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  5. Olá Pedro Luis,
    Concordo plenamente com você. Marcos Feliciano não nos representa e é importante que a sociedade saiba que nem todos os evangélicos são como os pastores que aparecem na TV.
    Cabe a nós mostrar com as nossas vidas um cristianismo encarnado, coerente com o Sermão do Monte.
    O racismo existe e temos uma dívida em relação aos negros que não são descendentes de escravos, mas de seres humanos que foram escravizados.
    O homossexual merece nossa compaixão, mas o homossexualismo é um movimento antidemocrático que quer impor sua perspectiva ao resto da sociedade. Precisamos ter a coragem de reconhecer e respeitar o diferente, sem deixar de afirmar nossas diferenças. Por exemplo, sou a favor de direitos materiais iguais para duplas do mesmo sexo, mas casamento é entre homem e mulher e, para ter um filho, precisa de um homem e uma mulher, ou seja a criança tem direito à vida desde o útero e tem direito a ter um pai e uma mãe. Isto não é politicamente correto, mas se falamos em direitos, falemos também do direito da criança. Acho um abuso que, na nova legislação, o pai e a mãe deixem de ser qualificados desta maneira para se tornarem parente n° 1 e 2. Assim a maioria perde uma referência importante.
    Enfim, são assuntos complexos e espinhosos!
    Um abraço,
    Isabelle

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  6. Gostei do artigo e concordo. Vocë tocou na questão do negro, que é camuflada no seio da igreja evangélica. Ninguém nunca conversa sobre isto. Mas tem também a questão de gënero. Igualmente ignorada. Temos um grupo de evangélicos que além de pressionar na Comissão de Direitos Humanos neste tempos difíceis, planeja um acompanhamento permanente. Precisamos desenvolver de maneira regular açòes de defesa de direitos junto à comunidade evangélica em todas as latitudes.

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  7. Olha, na minha opinião, o autor do artigo faz ares de profundo conhecedor da situação, mas no fundo, ele nada conhece das manipulações sociais e culturais. Se ele tivesse ficado de boca fechada e aberto só para orar e pedir sabedoria, ganharia muito mais.

    Abs,

    Julio

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  8. Artigo bem elaborado. Embora eu não concorde com todas as exposições. Por outro lado, já observei que falar mal de homens de Deus (independente se é da minha linha ou não) não faz bem. Há alguns anos atrás o nosso maior líder evangélico brasileiro, influenciado por uma grande rede de TV, se posicionava constantemente contra uma Igreja. Final da história, o nosso líder evangélico caiu. Ah, a Igreja que ele falava mal, continua crescendo...
    Marcone Hahan de Souza

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    1. Pr. João Neto - BHZ - MG30 de setembro de 2015 15:50

      Prezado Marcone Souza li também este artigo do Pedro, a exemplo de sua pessoa concordo em parte, mas aferir como bom ou ruim um líder pelo crescimento de seu ministério é reducionismo. Nem todo crescimento é prova de algo saudável.

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    2. Pr. João Neto,
      Desculpe se me expressei mal. Mas, também não concordo que deva ser aferido como bom ou ruim um líder, unicamente, pelo crescimento de seu ministério. O que tentei deixar claro é que, independentemente de um líder ou Igreja evangélica ser ou não da mesma linha que eu entendo como correta, não devo falar mal publicamente dele(a). Já temos os não cristãos que nos criticam...

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    3. Carlos da Silva, Pr.1 de outubro de 2015 11:43

      Caros João Neto e Marcone
      O texto é sensacional! o Pr. Pedro aborda de forma sucinta e abrangente a crise ética, moral e de identidade da igreja, expressa de forma explicita pelos líderes com cargos políticos e ou ligados a mídia. Nunca vi um pastor se posicionar com relação a racismo(pecado); homossexualismo (pecado), de uma forma tão direta e clara.
      Denunciar pecados internos da igreja é profecia. O argumento de que não pode fazer isto, não é bíblico, ao contrário, deve ser feito. O exemplo de João Batista denunciando aos quatro cantos a podridão dos que controlavam a religião da época (Fariseus, escribas, militares, cobradores de impostos e governo, no caso Herodes), confirmado por Jesus em seu ministério. Eles combateram de forma duríssima, os religiosos corruptos da época.
      Neste debate provocado, pelo texto do Pedro não é só diferenças de posições teológicas, tem a ver com honestidade, com ser mercenário, ladrão, mentiroso, vendido... Não tem posição teológica ou doutrinária que sustente isso. Que Deus levantes mais profetas.

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