domingo, 14 de junho de 2015

Soldado do Exercito de Davi - Sem o Espírito Santo não há obra de Deus - II

O primeiro líder que se aproximou de mim demonstrando um real interesse de ser ajudado foi o Pr. Gildário. Sertanejo autêntico de nascimento, nativo de Pombal no estado da Paraíba, pastor da igreja Assembléia de Deus Betesda em Itaporanga também na Paraíba.
Gildário aproximou-se, quando dos primeiros dias de nossa chegada, para assumirmos o Seminário Sertanejo da Juvep.
Apesar de seu jeito excessivamente irreverente, transparecia, em suas atitudes, um grande desejo de ser acompanhado.
 Seis dias depois, após a nossa mudança, ele visitou-nos. Era dia de feira. O convidei para comermos um guisado de bode com cuscuz na feira livre. Nada melhor que começar os primeiros contatos, principalmente com a liderança mais simples, de forma simples.
Durante o lanche, fiz-lhe uma proposta: perguntei se ele me acompanharia em uma campanha de jejum e oração. Estava chegando ao sertão e queria começar totalmente alicerçado na oração. Ele prontamente aceitou o convite.
No primeiro dia de consagração, pela manhã, depois que fiz uma oração geral pelo sertão e também, pelas lideranças da região, sugeri ao Pr. Gildário que intercedesse por sua igreja.
Ele começou a orar de uma forma displicente. Ao mesmo tempo em que orava sem convicção, bocejava e coçava as costas. Eu pedi que ele parasse de orar e sugeri que se empenhasse mais na intercessão. Gildário tentou de novo, mas não conseguia. Usando uma linguagem sertaneja para explicar o momento: Gildário estava “travado”.
Quando o questiono novamente, querendo entender o porquê de sua dificuldade, Gildário, tem um acesso de ira e grita:
- Eu não oro não! Eu não oro por eles não! Eles me rejeitam e eu os rejeito! Eu não quero saber daquele povo não!
Pensei comigo: Meu Deus! Com quem me aproximei para ser companheiro de oração? ou, numa expressão mais popular: “aonde amarrei a minha burra”.
Gildário estava passando uma crise sem precedentes com sua igreja, nas suas finanças, na sua alma, e, também pertubado com suas lembranças da infância. A sua auto-estima estava arrasada, os seus sonhos frustrados.
Antes de sua chegada em Itaporanga, havia uma expectativa em seu coração de ser honrado e exaltado nesse novo campo. Ele tinha assumido já a um ano e seis meses.
Havia passado por apuros em outros trabalhos missionários também;  sido humilhado antes, experimentado apertos financeiros angustiantes também, mas ele venceu todos esses problemas e se considerava um vitorioso, afinal de contas não é qualquer um que constrói e deixa três igrejas repletas de ovelhas em áreas muito carentes, inclusive na zona rural, cuja resistência ao evangelho é muito maior no interior do nordeste. Até o prefeito, de um dos municípios que o Gildário pastoreou, se converteu, numa sinalização, segundo ele, da aprovação de Deus. 
Quando chegou a Itaporanga – PB, encontrou uma igreja mantida, em grande parte, por um assistencialismo, por si só nocivo, por legitimar uma dependência, entranhada na cultura do sertanejo pobre, camada da população acostumada e adaptada a receber esmolas e paliativos.
Com a saída do antigo pastor, foi-se as verbas para as cestas básicas, para o combustível, indispensável ao carro que trazia as ovelhas da zona rural para o culto dominical.
Gildário queria dar continuidade ao mesmo estilo de trabalho, só que não tinha nenhum lastro. 
Pela “fé”, passou a comprar fiado gasolina e a fazer feira para as ovelhas carentes. As dividas foram aumentando de uma forma tal que  teve de vender o seu carro, para pagá-las. Contudo ainda lhe restava os agiotas para pedir dinheiro emprestado. Pegava dinheiro a juros altíssimos afim de cobrir os cheques passados sem a devida provisão de fundos. 
Uma ciranda financeira terrível impulsionada por uma necessidade de afirmar-se como líder assistencialista, a exemplo do anterior. Também alimentada por uma necessidade de compensação para a sua carência de auto-aceitação, devido a sua infância extremamente pobre, em que as sombras da miséria e da fome sempre perto.
Ao perceber que a sua expectativa de ser exaltado e honrado no novo campo foi apenas uma ilusão -  As ovelhas o rejeitavam de forma agressiva. 
Contrariado passou a ferir com palavras a todos, indiscriminadamente e a mandar recados através das pregações no púlpito. Abuso de poder indesculpável. Fato esse que, o mesmo, quando se deu conta do grave erro, pediu perdão de púlpito e individualmente ao rebanho. 
Para Gildário se dá conta dos graves equívocos foi um processo longo e doloroso. 
Eu percebi que Deus tinha colocado ao meu lado uma pessoa que precisava de um acompanhamento especial;  tinha um companheiro de oração, mas, ele era um líder gravemente doente que precisava ser tratado.
Ele tinha um perfil semelhante a dos soldados do Exercito de Davi (1Sm 22.2): endividado, rejeitado, amargurado, desesperado. Pessoas que, quando valorizadas pelo seu líder, dão suas próprias vidas por ele ou pela causa. 
A primeira semana de oração e jejum foi exclusivamente para ouvir o Gildário. Ele chegava religiosamente todos os dias pela manhã, logo cedo. Antes de começarmos a orar, falava, falava, falava... Tudo que vinha em sua mente, principalmente, no inicio do acompanhamento. Compartilhava assuntos recentes e do passado, também, acerca de fatos traumáticos ocorridos na sua infância.  Ao lembra de determinados assuntos chorava muito. 
A sua mãe morreu quando tinha apenas cinco anos. O pai o abandonou e os avós paternos o acolheram como quem acolhe um escravo. Gildário foi treinado para ser um “burro de carga”. Trabalhava pela alimentação.
Seria impossível resgatar o Gildário sem um acompanhamento intensivo. Ele só não dormia na minha casa. Seria impossível, também, se não houvesse em seu coração um desejo forte de restauração, se não houvesse confiança absoluta da parte dele para comigo; se não houvesse amor, boa vontade, de minha parte.
Ninguém pode discipular e consolidar o outro com as ferramentas ideais se não for pelo Espírito Santo (1 Co 12.6-11).
Foram, inicialmente, na primeira fase, nove meses de acompanhamento. O maior desafio foi à libertação da necessidade fundamental e vital que Gildário tinha que era a de TER. Pensava que o dinheiro responderia a todas as necessidades. E seu complexo de pobre e rejeitado o levava de forma compulsiva para uma compensação na área de aparência: O TER em detrimento do SER. Foi sua maior luta.
Entender que o Senhor era o Deus da provisão para alguém que mal conseguia jejuar meio dia, porque no momento em que começava a sentir fome entrava em pânico devido aos traumas em decorrência da fome que passou na infância, era muito difícil.
Inclusive tentei ajudá-lo na área financeira naquele momento, mas Deus tinha fechado as portas de uma forma radical. Ao entendermos isso passamos a confrontá-lo com a necessidade de descansar no Senhor que é o Deus da provisão. A impressão que eu tinha era como se fosse alguém extremamente dependente de uma droga e que precisava se desintoxicar. 
Depois de nove meses de acompanhamento intensivo, Deus entregou a igreja, que antes o rejeitava, em suas mãos.
No processo de oração em jejum o Senhor fez uma purificação na igreja extraordinária. Pessoas que estavam em prática sexual ilícita, chegaram ao pastor, de forma espontânea confessando o pecado alegando que não queriam continuar em tal pratica e estavam pedindo ajuda a Deus e a igreja; irmãos que resistiam de forma agressiva à sua liderança, chegando ao ponto de interromper a sua pregação com insultos em pleno culto, pediram perdão.
Mas, as portas das finanças ainda não tinham sido abertas até então. Foi quando o Pr. Gildário chega à sala da diretoria do Seminário Sertanejo, com um semblante semelhante aos primeiros dias que o vi quando da minha chegada em Itaporanga. 
De forma precavida e prudente convidei-o para sentar e contar as novidades. Ele desabafou: 
- Essa historia de missões é conversa fiada. Tudo é ilusão e mentira. O dinheiro não chega, as feiras não chegam. O povo só faz nos enganar...
Depois de ouvi-lo perguntei o que estava acontecendo de fato. Ele então respondeu: - Estou passando por uma humilhação muito grande.  Peço um real a um e a outro para que o programa do rádio não acabe. 
A igreja tinha um programa em uma radio comunitária, com duração de uma hora, um dia por semana, o valor mensal do espaço radiofônico era de cinqüenta reais.
Continuou Gildário a falar: 
- Não tem dinheiro para usar o fusquinha do Seminário Sertanejo.
O  fusquinha do Seminário estava à disposição de sua igreja. Devido a falta de dinheiro, era costume o Gildário colocar apenas um litro, às vezes só metade de um litro de gasolina no fusca. O frentista do posto passou a chamar o carro de zé gotinha. Ele conclui de forma pessimista: 
- Está tudo errado, eu não sei mais em quem acreditar. Os homens estão segurando as bênçãos de Deus para a minha vida.
Diante da realidade passei a tentar leva-lo a uma reflexão lógica: se o dinheiro não vinha já há vários meses era porque Deus não estava no assunto. E sugeri ao Gildário que desistisse tanto do programa do radio quanto da ida a zona rural até que a situação financeira melhorasse. Ele gritou irado: 
- Eu não desisto! Se desistir vão me chamar de covarde. 
Insisti na analise racional dos fatos afirmando que não tinha lógica aquela teimosia. O Gildário muito bravo falou: 
- Tem lógica sim. Eu vou continuar e pode dar o que der. Se desistir irão me chamar de derrotado. Eu não sou derrotado! Dirão que eu sou covarde. Eu não sou covarde! Deus querendo ou não querendo me ajudar, EU NÃO DESISTIREI! 
Percebi que tratava-se de algo além da razão e da lógica. Aquietei-me e esperei Gildário se acalmar. Ele, mais tranqüilo ofereceu algo inesperado para mim. Disse:
- Me compre a rifa.
Sem entender perguntei: que rifa? Ele respondeu:
- A rifa do galo.
Não comprei a tal rifa, mas fiquei impactado, sensibilizado com aquela realidade, escrevi um artigo e coloquei na internet . Quando o e-mail passou a circular na  o retorno foi imediato. Varias ofertas de enumeras igrejas, das mais diversas cidades, até fora do Brasil chegaram para abençoar o sertanejo da região do Vale do Piancó, Sertão da Paraíba, área muito carente com uma população evangélica ainda pequena, principalmente na zona rural. 
As portas finalmente se abriram para o Pr. Gildário. Nunca mais houve problema com falta de recursos. Deus passou a suprir.  Das vezes em que houve alguma dificuldade, posteriormente a esse momento marcante, foi devido a problemas administrativos. Mordomia mal realizada.                         Agora, o melhor de tudo foi o que aconteceu antes da benção material começar a fluir para o Gildário: ele foi liberto do medo, dos traumas da infância, de ser refém de aparência, a necessidade do ter hoje é confrontada diariamente, em sua vida com o ser servo a serviço de Deus.
A libertação mais importante nele, foi da necessidade compulsiva de consumo numa relação direta com sua auto-aceitação e segurança em se relacionar com o próximo, principalmente com o poder aquisitivo superior ao dele.
Melhorou muito o seu relacionamento com Deus: a ênfase passou a ser de relacionamento pessoal com o Senhor numa perspectiva mais que ritualística – religiosa. Numa rendição plena ao Pai Celeste. Ele passou a orar com esse conteúdo:
- Que Deus faça o que for preciso em minha vida para que eu possa ser livre para servi-lo. Desiluda-me, arranque de mim o que não Lhe agrada e administre a minha vida sem reservas.
 Um homem livre a caminho da Liberdade maior, num processo contínuo de crescimento que culminará, inevitavelmente na glorificação pelo sacrifício da cruz.
Todo esse processo só é possível na direção do Espírito. Não haveria aproximação minha com o Gildário que resultasse em libertação, aprendizado recíproco sem a motivação do Espírito Santo.
Mas só teremos segurança de nos aproximarmos do outro se formos bem resolvidos com Deus e conosco mesmo. Do contrário é melhor ficar distante, pois só o servo cura o outro (Mt 12.15-19; 20.25-28; 23.11). O doente adoece o outro. 

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